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Publicação periódica dirigida por Joaquim António Matias, que circulou entre 1954 e 1958, tendo como objetivo primordial reforçar os laços culturais, históricos e intelectuais entre Portugal e o Brasil. A revista surge num contexto em que os dois países procuravam estreitar as suas relações bilaterais, sustentadas por um património histórico comum, simbolizado pela partilha da língua portuguesa e pelas heranças culturais que ambos preservavam.
Publicada em pleno período do Estado Novo português e sob o governo de Getúlio Vargas no Brasil (seguido por Juscelino Kubitschek), Duas Pátrias emerge como um veículo de promoção do entendimento e da cooperação entre estas duas nações lusófonas. O título da revista reflete a ideia de um destino comum, enraizado na noção de um "mundo lusófono" que transcendia fronteiras nacionais.
A revista assumia-se como um documentário cultural, abordando temas de interesse partilhado, com ênfase na literatura, história, artes, economia e ciência. Funcionava também como uma plataforma de divulgação do pensamento político e ideológico que procurava sustentar a ideia de uma civilização luso-brasileira, muitas vezes contraposta às influências culturais anglo-saxónicas e ao contexto da Guerra Fria.
As edições, disponíveis digitalmente na Hemeroteca Digital de Lisboa, apresentam um conjunto diversificado de artigos, ensaios, reportagens e ilustrações. Entre os destaques, encontram-se: Reflexões sobre a história comum: Narrativas que enaltecem as relações luso-brasileiras desde o período colonial, incluindo a transferência da corte portuguesa para o Brasil em 1808 e a independência do Brasil em 1822; Promoção da literatura lusófona: Estudos sobre escritores e poetas portugueses e brasileiros, com particular destaque para autores que enfatizavam os laços culturais entre os dois países; Debates sobre cultura e identidade: Ensaios que exploravam a identidade luso-brasileira como um fator de unidade cultural e política no espaço lusófono; Visão económica: Artigos que analisavam as oportunidades de intercâmbio comercial e económico entre as duas nações.
- Edição inaugural (1954): Uma introdução à revista, com textos que sublinham a irmandade luso-brasileira e a importância do intercâmbio cultural.
- Edições subsequentes (1955-1958): Expansão dos temas, incluindo discussões sobre o papel da língua portuguesa como fator unificador e a relevância do Brasil e Portugal na preservação de valores culturais no contexto da modernidade.
A revista "Duas Pátrias" é contemporânea de Gilberto Freyre e das suas teorias do luso-tropicalismo, que exerceram uma forte influência no pensamento cultural e político luso-brasileiro durante o século XX. Freyre desenvolveu a ideia de que Portugal, devido à sua história e cultura, teria uma "vocação especial" para a miscigenação e para a integração cultural nos territórios tropicais, construindo um modelo de colonização "mais humano" e supostamente menos segregacionista em comparação com outras potências coloniais.
Esta teoria ganhou particular relevância na década de 1950, precisamente quando Duas Pátrias foi publicada (1954-1958). Durante este período, o regime do Estado Novo, liderado por António de Oliveira Salazar, apropriou-se amplamente das ideias de Freyre para legitimar o colonialismo português e projetar uma imagem positiva de Portugal como uma nação pluricontinental e multicultural. O conceito de luso-tropicalismo era usado para reforçar a narrativa de que a presença portuguesa em África, Ásia e América do Sul não era apenas legítima, mas também benéfica e diferenciada.
Embora não existam referências diretas de que Gilberto Freyre tenha colaborado com Duas Pátrias, a revista alinha-se ideologicamente com as suas teorias. A exaltação de uma relação especial entre Portugal e o Brasil, a valorização da herança histórica comum e a defesa de uma cultura lusófona global refletem claramente influências luso-tropicalistas. Duas Pátrias contribuiu para a disseminação destas ideias ao destacar as semelhanças culturais e históricas entre os dois países e ao promover uma visão idealizada do papel civilizador e integrador de Portugal no mundo.
Portanto, pode afirmar-se que Duas Pátrias foi não apenas contemporânea, mas também, em muitos aspetos, uma publicação alinhada com o pensamento de Freyre, utilizando as suas teorias para reforçar a narrativa do Estado Novo e fortalecer os laços simbólicos entre Portugal e o Brasil.
As edições da revista estão disponíveis em formato digital na Hemeroteca Digital de Lisboa.
Fontes:
HML - https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/periodicos/DuasPatrias/DuasPatrias.htm
Miriam de Sousa
Local de Publicação
Local de Impressão
Lingua de Publicação
Preços
Equipa
- Director
- Domingues, António do Valle
- Proprietário
- Matias, Joaquim António
Localização das colecções
HML - https://hemerotecadigital.cm-lisboa.pt/periodicos/DuasPatrias/DuasPatrias.htm