Subtítulo
O jornal A Defeza de Angola, foi o primeiro bissemanário de Angola, sendo publicado em Luanda desde 21 (?) de fevereiro de 1903 até 11(?) de dezembro de 1907. A coleção da Biblioteca Nacional de Portugal aqui apresentada atesta que a desejada periodicidade não foi regularmente atingida, sendo nesta fase sobretudo semanal.
Foi o primeiro periódico angolano a ter por objetivo programático a defesa da autonomia da colónia, afirmando-o no próprio subtítulo: “Libertando pela Paz; Igualando pela Justiça; Progredindo pela Autonomia”.
A sua fundação foi impulsionada pela maçonaria republicana (Grémio Português de Luanda) ligada à burguesia colonial que animava a Associação Comercial de Luanda, entre outras associações comerciais e agrícolas espalhadas pelo território. Como a sua história e conteúdos evidenciam, os seus dinamizadores mantinham estreitas relações com políticos, jornalistas e escritores republicanos em Portugal. Fariam parte do “partido colonial” que um dos assíduos colaboradores lisboetas do Defeza, o escritor, crítico e jornalista Fernando Reis (1865-1936), reclamando a paternidade da designação, definiu como “uma numerosa agremiação de africanos e africanistas legítimos diretamente interessados no progresso e desenvolvimento das colónias de Portugal” (Reis 1907, sobre o “partido colonial” ver Machado 2023). Uma reunião de interesses também espelhada na publicidade que alimentava o jornal.
Por recomendação do histórico dirigente republicano Sebastião de Magalhães Lima (Rio de Janeiro, 1850- Lisboa, 1928), teve por primeiro diretor o escritor e jornalista José de Macedo (Vila Nova de Gaia, 1876- Nazaré,1948) que viajou em 1902 para Angola com esse fim. Não se conhecendo exemplares do jornal sob a sua direção, os estudos apontam que Macedo, para além da defesa da autonomia de Angola, se terá centrado no combate ao trabalho forçado (serviçal), temas que vinham alimentando acesos debates. O jornal terá sido alvo de diversos processos, designadamente na pessoa do editor responsável em 1904, José Alves de Almeida, precisamente por acusar o governador-geral Custódio de Borja de proteger o esclavagismo (Guimarães, 1981, v. 2, 353-354).
Macedo abandonou Angola em 1906 por razões pessoais e foi substituído pelo escritor e jornalista Júlio Lobato (Porto, 1872- Luanda,1911). Tal como Macedo, Lobato trazia uma larga experiência jornalística, tendo dirigido os periódicos portuenses A Folha do Norte, A Geração Nova e A arte: órgão do Movimento Intelectivo Internacional. O jornalista dirigiu o Defeza de Angola entre julho de 1906 e 24 de novembro de 1907 (A Defeza de Angola, de 21 de fevereiro e 6 de dezembro de 1907), altura em possíveis tensões internas terão conduzido à sua saída do jornal e pouco depois ao fim do Defeza. No início de janeiro de 1908, Lobato fundava o bissemanário Voz de Angola que reclamava a continuidade do projeto do Defeza. Trocado o administrador, mantinha o lema, a sede e o editor responsável.
A coleção disponibilizada corresponde à direção de Júlio Lobato, que assinava com o pseudónimo Xavier da Câmara ou as iniciais X.C. Lobato envolvera-se igualmente na política local, sendo vice-presidente da Comissão Municipal de Luanda. No quarto aniversário do jornal, explicava a postura jornalística do Defeza enquanto tribuna orientadora da opinião, guiada pela “verdade”, em prol do “desenvolvimento moral e material da colónia” (A Direção 1907). Seria, no entanto, ao iniciar o Voz de Angola que Lobato elaboraria sobre o projeto do Defeza. Para além das matérias já referidas, aponta outras como a defesa da ação civilizadora dos “indígenas” (descritos em termos comuns ao africanismo e orientalismo coevo), tendo na criação de “necessidades novas” que os transformasse em trabalhadores-consumidores uma vertente fundamental (Camara 1908).
Os conteúdos jornal confirmam a tríade que constitui o seu subtítulo. Antes de mais, a agenda descentralizadora e autonomista coerente com um projeto colonizador centrado nos interesses locais representados sobretudo pelos empresários e outros agentes da sociedade civil que guiariam a estratégia desenvolvimentista. Uma agenda que tinha no combate à corrupção e incompetência administrativa uma das linhas mestras. Confirmam também a oposição à militarização da colónia que desviava recursos e alimentava tensões locais, estabelecendo uma relação direta entre paz e prosperidade garantida pela iniciativa privada sustentada pela ação do poder. Finalmente confirmam a luta contra a escravatura disfarçada dos trabalhadores “indígenas” e o seu tráfico para São Tomé, na qual razões humanitaristas conjugavam com a apreensão causada pelo impacto das migrações forçadas na mão-de-obra localmente disponível. No plano nacional, foi assíduo no combate ao governo de João Franco e à monarquia, criticando, por exemplo, o propósito da visita às colónias africanas pelo Príncipe herdeiro, Luís Filipe.
Pretendendo ser a voz de Angola, com implantação territorial, o jornal investiu numa rede de correspondentes, alguns identificáveis e outros assinando com pseudónimos ou acrónimos, que alimentavam seções como a “Mala da Província”, “A revista dos Distritos” ou “O nosso Correio”. Investiu, igualmente, no debate de matérias económicas e sectoriais com destaque para a agricultura. Apostou, não menos, na expressão de opiniões diversificadas, assegurada por uma rede de jornalistas e escritores republicanos em Portugal e em Angola, frequentemente expressas em crónicas, sobretudo nas secções “Opiniões e Sentimentos” e “Questões do Dia”. Contou, ainda com seções assinadas sob pseudónimo, como os casos de “Factos e Reflexões” por Spartaco, “Casos e Ecos” por Argus, “Ecos do Estrangeiro” por Reporter e “Varia” por Justus. Por regra os números incluíam pequenos poemas, entre muitos outros, de Guerra Junqueiro, Alberto Osório de Castro, Angelina Vidal, Eugénio de Castro, Alberto Marques Pereira, Branca de Gonta Colaço, Mariano Gracias. Teve a originalidade gráfica de reproduzir em folhetim o conto de Fialho de Almeida, Tragédia do génio obscuro, de uma edição de Os Gatos, respeitando a paginação original.
Para além de outros colaboradores dispersos pelas províncias, os mais frequentes estavam em Portugal. Especificamente Fernando Reis com “Cartas de Lisboa”, depois renomeadas "Cartas da Metrópole"; e o político, jornalista e escritor Francisco Mayer Garção (Lisboa, 1872-1930) com “Notas & Impressões”, um frequente colaborador de Reis em outros projectos. Para além dessas rúbricas, ambos dispersaram textos de crítica e literários em outras seções. O jornal contou, ainda, com o contributo esporádico de Ana de Castro Osório, sempre anunciado com destaque.
Em finais de 1906, anunciava que passaria a ser ilustrado, em conformidade com as exigências de um “jornal moderno”, mas o projeto gorou-se.
Durante este período teve por editor Marcolino António Joaquim. Entre julho e setembro de 1907 teve por administrador o capitão Álvaro Teixeira Lopes, substituído em outubro por Nicolau Albuquerque.
Teve tipografia própria, mantendo a redação, administração e oficinas na Rua D. Miguel de Mello, 30 em Luanda.
Ficha e apresentação: Sandra Ataíde Lobo, com a colaboração de Miriam de Sousa
Bibliografia
“Expediente” A Defeza de Angola, n. 313, 6 de dezembro de 1907
A Direção, “Quarto Ano” A Defeza de Angola, n. 262, 21 de fevereiro de 1907
Barros, Júlia Leitão de, O jornalismo político republicano radical. Lisboa: Instituto Politécnico de Lisboa, 2021
Camara, Xavier da, “Definindo” Voz de Angola, n. 1, 5 de janeiro de 1908
Costa, Cátia Miriam da Silva, Continuidades e descontinuidades da colonização portuguesa: literatura e jornalismo entre a utopia e a realidade. Tese de Doutoramento em Literatura. Évora: Universidade de Évora, 2015. http://hdl.handle.net/10174/16141
Evans, David Glyn, The Chocolate Makers and the “Abyss of Hell”: Race, Empire and the Role of Visual Propaganda in the Anglo-Portuguese Controversy surrounding Labour Coercion in the “Cocoa Islands” (1901 - 1917). Tese de Doutoramento em Línguas, Literaturas e Culturas. Lisboa: NOVA-FCSH, 2022. http://hdl.handle.net/10362/147069
Figueiredo, Arte, Cláudia Alexandra Gonçalves. Redenção e Transformação: a experiência da Sociedade Teatro Livre (1902-1908). Dissertação de Mestrado em História Contemporânea. Lisboa: NOVA-FCSH, 2011 https://run.unl.pt/handle/10362/7062 .
Fonseca, Isadora de Ataíde, A Imprensa e o Império na África Portuguesa (1842–1974). Lisboa: Edições 70, 2019
Fortes, Arminda Augusto, José de Macedo, um intelectual na viragem do século: organização e descrição do espólio arquivístico. Dissertação Mestrado em Ciências Documentais. Lisboa: UAL, 2014. http://hdl.handle.net/11144/435
Guimarães, Adelino A. Torres, Colonização, penetração do capital e dependência (Angola). Tese de Doutoramento em Economia. Lisboa: UL/ISE, 1981. v. 2 http://hdl.handle.net/10400.5/11127
Lopo, Júlio de Castro. 1964. Jornalismo de Angola: Subsídios para a Sua História. Luanda: Centro de Informação e Turismo de Angola.
Macedo, José de, Autonomia de Angola. 2ª ed. Lisboa: Centro de Socio-Economia: Instituto de Investigação Científica Tropical, 1988
Machado, Adelaide Vieira. "Portuguese colonial agents and models: metropolitan colonial periodicals (1912–1937)", in Machado, Adelaide Vieira; Fonseca, Isadora; Lobo, Sandra Ataíde; Newman, Robert S. (eds.), Creating and Opposing Empire The Role of the Colonial Periodical Press. Routledge, 2023, p. 158-185
Maria Cristina Portella Ribeiro, Ideias republicanas na consolidação de um pensamento angolano urbano (1880 c.-1910 c.): convergência e autonomia. Dissertação de Mestrado em África. Lisboa: FLUL, 2012. Ideias republicanas na consolidação de um pensamento angolano urbano, 1880 c.-1910 c. :convergência e autonomia
Melo, A. Borges de, História da Imprensa de Angola. Rio de Janeiro: Semana Ilustrada Editorial Ltda, 1993
Reis, Fernando, “Opiniões e sentimentos. O partido colonial” A Defeza de Angola, n. 266, 17 de março de 1907
Periodicidade
Local de Publicação
Local de Impressão
Locais da Redacção
Lingua de Publicação
Preços
Equipa
- Director
- Macedo , José de
- Director
- Lobato, Júlio
- Administrador
- Lopes, Álvaro Teixeira
- Editor
- Joaquim , Marcolino Antonio
- Administrador
- Albuquerque, Nicolau
- Colaborador
- Reis, Fernando
- Colaborador
- Garção, Francisco Mayer
- Colaborador
- Osório, Ana de Castro
Localização das colecções
BNP - J. 1701//3 G. - link permanente do registo. Colecção também acessível na BN Digital.